JUSTIFICATIVA

A diversidade cultural é uma das marcas que identifica, caracteriza, mobiliza e desafia os contextos Latino-Americanos de maneira intensa e peculiar. Essa diversidade tem sua gênese na multiplicidade de povos indígenas, nos processos de colonização de populações europeias (espanhóis, portugueses, alemães, italianos, poloneses, dentre outros), sendo ampliada, paulatinamente, com a vinda dos povos africanos e pelo fluxo migratório de povos do Oriente Médio e do continente Asiático. Assim, os diferentes povos, culturas que configuram os diferentes rostos latino-americanos portam em seu bojo diferentes cosmovisões, e portanto, distintas compreensões de desenvolvimento(s).

Historicamente, múltiplas relações, intercâmbios e hibridações acentuaram a diversidade étnica, cultural, epistêmica, política, econômica e religiosa das sociedades latino-americanas, gerando possibilidades de construções e (re)criações inusitadas. Essa rica diversidade constitui uma riqueza ímpar para as diversas culturas presentes neste continente, mas, ao mesmo tempo, exige atenção e esforços no sentido de problematizar relações de poder que produzem identidades e diferenças para atender determinados interesses e finalidades.

Diante de tantos conflitos, segregações, privações, preconceitos, discriminações, colonialismos e violências que marcaram a história complexa do continente latino-americano, urge um posicionamento crítico, ético e político empenhado em assegurar a dignidade humana e em propiciar relações alteritárias entre diferentes culturas, possibilitando a cada sujeito/grupo à liberdade de se desenvolverem autonomamente, enfrentando processos que forjam identidades e diferenças a partir de um único modelo padronizado de ser, pensar, falar, agir e viver.

O caráter monocultural do Ocidente, expresso na existência de algumas tradições culturais dominantes e de algumas culturas dominadas, silenciadas e invisibilizadas – quando não forçadas a desaparecer – impregnou os modelos, práticas e sistemas educativos. Por isso, a educação, principalmente a que ocorre de forma escolarizada, tende a ser homogeneizante e colonizadora, na medida em que anuncia e acolhe uma única forma de saber, deslegitimando uma variedade de outras possibilidades. (MÉNDEZ, 2009).

Construir coletiva e dialeticamente possibilidades históricas de mudança nos sistemas educativos considerando a diversidade cultural, os saberes locais e outras formas de desenvolvimento são desafios às sociedades latino-americanas da contemporaneidade. Denise Arnold (2008) apresenta críticas a modelos de desenvolvimento que focalizam apenas aspectos econômicos, e declara apoio à tendência atual denominada descolonização, que se opõe à visão de desenvolvimento imposta pelo modelo hegemônico europeu.
Assim, se outro desenvolvimento é possível, outra educação é igualmente possível, necessária e imprescindível. A busca de alternativas educativas perpassa, irrevogavelmente, por uma fundamentação intercultural à altura das exigências de diálogo e justiça cultural reivindicada por inúmeros sujeitos, principalmente aqueles que vivem nas fronteiras e em territórios em disputa ou contestados.

É compreensível, portanto, que nas últimas décadas tenha ocorrido um significativo aumento de grupos e movimentos que, de forma organizada e articulada, vêm buscando reconhecimento de suas identidades, emancipação e superação das condições marginais em que se encontram. Tais grupos enfrentam e questionam processos de exclusão e desigualdades a que foram submetidos historicamente, através da criação, incorporação e difusão de outras bases epistemológicas, e encontram na Interculturalidade, enquanto um paradigma emergente, a possibilidade de gestação de outras formas de relacionamento entre grupos socioculturais diferentes, abrindo perspectivas para novas concepções e práticas educacionais.

No campo educacional, onde também se constata a presença e manifestação das diversidades, a Interculturalidade representa a possibilidade de questionamento de concepções epistemológicas e pedagógicas monoculturais, contribuindo para superação de processos educacionais que procuram normalizar os diferentes e as diferenças. Ao mesmo tempo, pode contribuir com o estabelecimento de novas formas de observar, interpretar e encaminhar ações curriculares e metodológicas frente aos desafios do mundo atual, na tentativa de (re)criar, a partir do cotidiano escolar, novos olhares frente a diversidade humana e cultural.
Uma educação em perspectivas interculturais não nega a complexidade implícita à sua gênese. Pressupõe uma coerência entre os fundamentos epistemológicos, os encaminhamentos metodológicos e as necessidades, limites e possibilidades dos sujeitos significarem a própria existência e identidade cultural numa relação interativa com diferentes culturas.

A proposta de uma educação alternativa, de perspectiva intercultural, pode ser um dos meios fomentadores de formas de convivência que reconheçam as alteridades e assegurem o respeito à história, identidade e memória de cada grupo cultural dentro de suas bases lógicas e epistemológicas, por meio do diálogo, troca de experiências e da promoção dos direitos humanos.

O desafio se constitui em dar voz a outras epistemes que possam gerar e sustentar propostas alternativas de desenvolvimento e de educação, que integrem a diversidade de culturas em suas múltiplas possibilidades e conhecimentos, articulando diálogos que rompam conceitos cristalizados e práticas homogeneizadoras, que permitam ensaiar a superação do pensamento que legitima a exclusão e a desigualdade.

O II SICDES, o II CONSUDI e o V Colóquio Catarinense de Ensino Religioso, ao proporem a discussão da educação intercultural, querem ser um espaço de interlocução entre diferentes culturas, grupos e movimentos sociais, buscando construir diálogos, pesquisas e perspectivas pedagógicas que promovam o (re)conhecimento das alteridades, através do diálogo, escuta e da aprendizagem de práticas colaborativas e solidárias.

A perspectiva intercultural coloca a educação a serviço da vida e ajuda a superar a violência epistemológica que caracterizou o encontro assimétrico das culturas do saber, bem como, permite questionar a cosmovisão vinculada monoculturalismo, pensado e construído a partir dos referenciais e interesses de expansão do consumo e dos mercados. São essas algumas das dimensões, com olhar crítico e emancipador, que o II SICDES, o II CONSUDI e o V Colóquio Catarinense de Ensino Religioso pretendem abordar.