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Justificativa

A diversidade cultural é uma das marcas que identifica, caracteriza e desafia as sociedades latino-americanas e caribenhas de maneira intensa e peculiar. Desde o princípio, as diferentes etnias e culturas que configuram as diferentes faces latino-americanas portam distintas cosmovisões e, portanto, diferenciadas compreensões de desenvolvimento(s).

Ao longo dos últimos cinco séculos, a monoculturalidade da cultura europeia se impôs pela aliança entre a cruz (poder religioso católico) e a espada (poder político-mercantil), sobre as demais matrizes culturais que foram sistematicamente combatidas, convertidas e negadas em nome de um ideal civilizatório exclusivista.

Frente a isso, urge um posicionamento ético e político empenhado em assegurar a dignidade humana e em propiciar relações alteritárias entre diferentes culturas, enfrentando processos que forjam identidades e diferenças a partir de um referencial padronizado de ser, pensar, agir e viver. Construir coletiva e dialeticamente possibilidades históricas de mudança nas relações sociais que considerem a diversidade cultural, os saberes locais e outras formas de desenvolvimento são desafios às sociedades latino-americanas e caribenhas da contemporaneidade.

Neste intento, os princípios ancestrais do bem viver despontam como uma saída possível, pois se assentam em relações equilibradas entre o humano e a natureza, a partir de uma visão de integração e interdependência. O bem viver é um paradigma andino que provém do termo Sumak Kawsay (em quéchua) e Suma Qamaña (em aymará), e representa a busca pela satisfação das necessidades humanas de forma justa e igualitária, a convivência respeitosa com o meio ambiente e a liberdade dos sujeitos vivenciarem suas identidades culturais. Esses princípios traduzem-se na busca por equilíbrio, na interação entre a natureza e os seres humanos, na interdependência e complementaridade entre os seres vivos e entre as diversas etnias e culturas.

O bem viver, aliado à perspectiva da Interculturalidade, carrega a potencialidade capaz de pautar outras maneiras de ser e viver, outras lógicas de desenvolvimento que permitam a superação das assimetrias de poder existentes entre as culturas - as quais legitimam processos de colonização do ser, saber e do viver – e outras relações com a natureza, não mais como mercadoria a ser expropriada pelo sistema econômico capitalista.

Dar sustentação às propostas alternativas de organização dos territórios e das culturas, valorizando a diversidade em suas múltiplas possibilidades e conhecimentos, articulando diálogos que rompam conceitos cristalizados e práticas homogeneizadoras, são estratégias que poderão superar territórios de preconceitos e discriminações gerados pela invisibilização de conhecimentos próprios de diferentes culturas, questionando epistemologias e pedagogias monoculturais.

O III SICDES, juntamente com o III Encontro da Rede de Interculturalidade, o IV Encontro da Rede de Trabalho com Povos Indígenas e o V Encontro Sociedades em Transformação, intenta oportunizar espaço de diálogos, intercâmbios e parcerias acerca do desafio emergente de reconhecimento das identidades culturais em sua diversidade de saberes, visando a construção de alternativas epistemológicas e pedagógicas que subsidiem a promoção de outras lógicas de desenvolvimento dos territórios, de forma mais justa, colaborativa e solidária.